Destinos Nacionais Atualizado em 10 de agosto de 2026 por Sônia Vargas Pimentel

A criatividade e a força de trabalhadores ambulantes das praias do Rio de Janeiro são retratadas na exposição 'Não Somos Mula', do fotógrafo Rogério Reis, no Centro Municipal Hélio Oiticica até 30 de agosto.

Criatividade de ambulantes é tema de exposição fotográfica no Rio

A criatividade e a força de trabalhadores ambulantes das praias do Rio de Janeiro são o coração de uma exposição fotográfica que ocupa o Centro Municipal Hélio Oiticica, no centro da capital fluminense, até o próximo dia 30. A mostra "Não Somos Mula", do premiado fotógrafo Rogério Reis, reúne cerca de 120 fotografias, a maioria apresentada ao público pela primeira vez.

O que é a exposição "Não Somos Mula"

A exposição "Não Somos Mula" é um retrato poético do cotidiano dos ambulantes das areias cariocas. O nome, explica Reis, remete aos trabalhadores que ganham a vida na orla e carregam peso, como os vendedores de mate com seus dois galões de bebidas. As fotos e projeções feitas pelo fotógrafo em suas caminhadas pela orla fazem um contraponto poético ao trabalho pesado desses ambulantes.

As imagens realçam a capacidade de inovação e criatividade desses trabalhadores, que criam estruturas para transportar mercadorias e organizar o trabalho no dia a dia. Carrinhos, caixas térmicas, guarda-sóis e suportes improvisados acabam se assemelhando a verdadeiras esculturas e instalações.

O olhar de Rogério Reis sobre as gambiarras

Rogério Reis dá a esses elementos "uma visão mais lúdica, mais artística", conforme define. Em suas palavras: "Na verdade, meu método de trabalho é uma sistematização poética desses artefatos, dessas ferramentas, dessas gambiarras todas usadas como suporte para exposição dos produtos".

O fotógrafo transforma o que seria apenas utilidade em arte. Uma caixa térmica equilibrada sobre um carrinho, um guarda-sol preso com cordas, um suporte improvisado para pendurar mercadorias: tudo vira escultura diante da lente. É a poesia do improviso, do jeito brasileiro de resolver problemas com o que se tem à mão.

Onde as fotos foram tiradas: Copacabana em destaque

A maior parte das fotos, cerca de 80%, foi tirada em Copacabana, onde essa atividade é mais forte. Os 20% restantes foram nas areias do Arpoador, Ipanema e Leblon. Quem conhece a rotina da orla carioca reconhece de imediato os personagens: o vendedor de mate equilibrando os dois galões, o ambulante de óculos de sol com sua caixa térmica, o vendedor de picolé com seu carrinho colorido.

Exposição em meio ao Programa Tolerância Zero

O trabalho chega ao espaço cultural em um momento em que ambulantes protestam contra o Programa Tolerância Zero, lançado pela Prefeitura do Rio de Janeiro como iniciativa de ordem urbana na orla da cidade. A ação intensificou a fiscalização contra camelôs que atuam sem credenciais do município nas praias, afirmando que o comércio irregular era explorado e rendia cifras milionárias a facções do crime organizado.

O Movimento Unido dos Camelôs (Muca), entretanto, tem ido às ruas para protestar e cobrar diálogo com a categoria, afirmando que os trabalhadores estão sendo tratados como criminosos. O programa também foi contestado pelo Ministério Público Federal, que ajuizou uma ação civil pública pedindo a suspensão imediata.

Para o procurador regional adjunto dos Direitos do Cidadão Julio Araujo, a medida foi implementada sem diálogo com a União, sem participação da sociedade e sem a apresentação de alternativas para a regularização dos milhares de ambulantes que dependem da atividade para garantir renda.

O temor dos ambulantes: privatização do mercado das areias

Em conversas com os ambulantes das areias, Rogério Reis contou que ouviu relatos preocupados de que possa haver uma tentativa de privatização desse negócio, que ocorre em condições precárias. Ambulantes manifestaram ao fotógrafo o temor de que, algum dia, o mercado das areias seja ocupado por empresas.

A maioria dos trabalhadores das areias é autônoma, e Rogério Reis defende que o governo municipal, em vez do Tolerância Zero, deveria ter um projeto socioeducativo para qualificar esse tipo de trabalho. É uma visão que conecta a arte à realidade social: a mesma criatividade que gera as esculturas improvisadas também sustenta famílias inteiras.

Por que visitar a exposição

Visitar "Não Somos Mula" é mais do que ver fotografias. É entender, pela imagem, a história de quem constrói o próprio trabalho na areia todos os dias. O fotógrafo não apenas documenta: ele eleva o cotidiano a arte, sem perder a humanidade dos retratados.

A exposição fica no Centro Municipal Hélio Oiticica até o dia 30, no centro do Rio. Para quem planeja um roteiro cultural pela cidade, é uma oportunidade de ver a orla por outro ângulo, o da poesia que existe no trabalho duro.

Perguntas Frequentes

Onde fica a exposição "Não Somos Mula"?

A exposição ocupa o Centro Municipal Hélio Oiticica, no centro do Rio de Janeiro, até o dia 30.

Quantas fotos tem a exposição?

A mostra reúne cerca de 120 fotografias, a maioria inédita, do fotógrafo Rogério Reis.

Onde as fotos foram tiradas?

Cerca de 80% das fotos foram feitas em Copacabana, e os 20% restantes nas areias do Arpoador, Ipanema e Leblon.

O que significa o nome "Não Somos Mula"?

O nome remete aos trabalhadores ambulantes que carregam peso nas areias, como os vendedores de mate com seus dois galões de bebidas.

A exposição tem relação com o Programa Tolerância Zero?

A mostra chega em meio a protestos de ambulantes contra o programa da Prefeitura do Rio, contestado também pelo Ministério Público Federal.

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