Dicas de Viagem Atualizado em 05 de agosto de 2026 por Tatiana Holanda Quezado

Bethânia Amaro estreia no romance Ressalga, dando voz a profissionais do sexo que marcaram a Ladeira da Montanha, em Salvador, entre as décadas de 1950 e 1970, resgatando uma história invisibilizada.

Bethânia Amaro estreia no romance, dando voz a profissionais do sexo

A escritora Bethânia Pires Amaro estreia no romance com Ressalga, obra que devolve o protagonismo a profissionais do sexo que atuaram na Ladeira da Montanha, em Salvador (BA), entre as décadas de 1950 e 1970. O livro será apresentado na Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), que acontece de hoje (5) a domingo (9) no Centro Histórico da cidade. A autora participa de bate-papo na Casa Motiva e na Casa Odisseu, no próximo sábado (7).

O que é Ressalga e por que a Ladeira da Montanha?

Ressalga é o romance de estreia de Bethânia Amaro, que parte da transformação da Ladeira da Montanha, que liga as cidades Alta e Baixa em Salvador. O local, que foi reduto da boemia e da vida noturna, hoje está em ruínas. A autora conta que cresceu em Salvador e sempre soube da importância da região no imaginário da cidade. "Atualmente a Ladeira da Montanha está completamente desmoronada, fantasmagórica, uma rua realmente bastante arruinada, no sentido mais literal possível, os prédios estão em ruínas. E eu queria entender como tínhamos chegado de um lugar até o outro", disse.

A invisibilização das mulheres na memória oficial

A pesquisa para o livro revelou que as profissionais do sexo foram apagadas da historiografia oficial. "Essas mulheres tinham sido o coração daquela região, daquele centro histórico, e não havia nada na voz delas, não havia nada mesmo. Foi uma invisibilização da existência dessas mulheres", afirmou a escritora. Bethânia encontrou muito material sobre a região, mas quase sempre sob uma lente masculina, em biografias de grandes homens, como as preservadas pela Assembleia Legislativa da Bahia.

Foi por meio das lembranças desses homens, "ali pelos cantos dessas biografias e entrevistas", que ela reconstruiu a vida dessas mulheres. "Elas foram realmente apagadas em termos de registro histórico. Só sobreviveram na memória e na voz desses homens que frequentavam aqueles espaços e se lembravam delas."

Personagens reais e a metaficção

O livro é metaficcional e conta a história de três gerações de mulheres na Bahia, com destaque para Graça, que se torna a maior cafetina da cidade. A personagem foi inspirada em prostitutas reais, como Maria Pires, que oferecia 50% de desconto para estudantes, e Maria da Vovó, que comandou um cabaré que reunia até 60 mulheres nas noites mais cheias e enfrentava a violência policial.

A trama é permeada por acontecimentos históricos, como a morte de Getúlio Vargas, a ascensão de Juscelino Kubitschek, e figuras como o médium Zé Arigó e o delegado de costumes Almir Araújo. "A ideia é que o leitor se sentisse transportado para Salvador e para o Brasil dos anos 50, 60, 70, e que a história se mostrasse a ele sob esse aspecto, uma história verossímil", explicou.

O projeto abortado de Jorge Amado

Durante a pesquisa, Bethânia descobriu que Jorge Amado planejava escrever um livro sobre as mulheres da Ladeira da Montanha, com fotografias de Flávio Damm, intitulado Mulher Dama. O projeto nunca foi concluído por causa da repressão após o Ato Institucional número 5 (AI-5). As imagens ficaram guardadas por mais de 50 anos, até uma mostra em Salvador, em 2018. "Foi a primeira vez que essas fotos saíram da sombra."

Flipelô e o retorno a Salvador

A autora está ansiosa para apresentar Ressalga na Flipelô, que ocorre no Centro Histórico de Salvador, onde a história se passa. "É literalmente o território de onde a história surgiu", disse. Ela também cita a influência de autores baianos como Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro, que "mostraram que as histórias ali ao meu redor, do lugar onde eu vivia, também mereciam ser contadas".

Perguntas Frequentes

Quando Bethânia Amaro participa da Flipelô?

A escritora participa de bate-papo na Casa Motiva e na Casa Odisseu no sábado (7), durante a Flipelô, que vai até domingo (9) no Centro Histórico de Salvador.

O livro Ressalga é uma obra de ficção ou não ficção?

Ressalga é um romance metaficcional, que mistura ficção com grande substrato histórico, incluindo eventos e personalidades reais do Brasil dos anos 1950 a 1970.

Quem são as mulheres retratadas no livro?

As protagonistas são profissionais do sexo que trabalharam na Ladeira da Montanha, como Maria Pires e Maria da Vovó, além da personagem fictícia Graça, inspirada em histórias reais.

Qual foi a premiação do primeiro livro de Bethânia Amaro?

O primeiro livro de Bethânia, Ninho, venceu os prêmios Jabuti, APCA e Sesc de Literatura, todos na categoria Contos.

Por que a história dessas mulheres foi invisibilizada?

Segundo a autora, elas foram apagadas da historiografia oficial, restando apenas registros sob a lente masculina, em biografias e entrevistas de homens que frequentavam a região.

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