Na Flipelô, Itamar Vieira Junior rebate o mito de que brasileiro não gosta de ler: o problema é a desigualdade de acesso. Conheça dados da Retratos da Leitura e a plataforma MEC Livros.
Brasileiro gosta de ler, mas tem dificuldade de acesso, diz escritor Itamar Vieira Junior
Na noite de ontem (7), o escritor Itamar Vieira Junior levou uma plateia que lotou o Largo do Pelourinho, em Salvador, a refletir sobre um mito que insiste em circular: o de que o brasileiro não gosta de ler. Para ele, essa afirmação é falsa. O que existe, diz, é uma desigualdade de acesso que impede milhões de pessoas de chegarem aos livros. A fala aconteceu durante a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), onde o autor conversou com o público presente.
Por que o brasileiro gosta de ler, mas não lê mais
A resposta direta é: falta acesso. Segundo Itamar Vieira Junior, em toda parte do Brasil há uma quantidade imensa de pessoas interessadas em livros e leitura. O problema não está no interesse, mas nas barreiras que separam o leitor do livro. "Posso dizer para vocês que, em toda parte do Brasil, a quantidade de pessoas interessadas em livros e em leitura é imensa", afirmou, arrancando aplausos da plateia.
O escritor foi direto ao ponto ao rebater o senso comum: "Isso não é verdade. O que existe é desigualdade de acesso". Essa desigualdade se manifesta de várias formas: preço alto do livro, falta de bibliotecas públicas em bairros periféricos e a ausência de políticas públicas que garantam o contato com a leitura.
A trajetória de Itamar Vieira Junior e a Trilogia da Terra
Itamar Vieira Junior é autor da Trilogia da Terra, que começou com o sucesso Torto Arado, passou por Salvar o Fogo e agora é concluída com seu atual livro Coração sem Medo. Em sua fala na Flipelô, ele lembrou que frequentava muitas bibliotecas públicas de Salvador na juventude, e que esses espaços foram fundamentais para sua formação como leitor e escritor.
"Se não houvesse essas bibliotecas, certamente eu teria perdido muito das leituras que eu fiz ali na minha adolescência, no começo da vida adulta", ressaltou. A declaração reforça o papel estrutural que as bibliotecas públicas têm na democratização do acesso à cultura, especialmente para quem vive em periferias.
Desigualdade de acesso: o livro caro e a falta de bibliotecas
O escritor foi enfático ao descrever o cenário: "É um país profundamente desigual e o livro não é barato. E às vezes não há uma biblioteca pública no bairro onde a gente mora lá na periferia". Para ele, o ideal seria que houvesse uma biblioteca em cada bairro, garantindo que nenhuma criança ou jovem precise percorrer longas distâncias para encontrar um livro.
Essa realidade é confirmada por dados. Em 2024, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, apontou que 47% da população com 5 anos ou mais se declarou leitora, o equivalente a cerca de 93,4 milhões de pessoas. Por outro lado, 53% não leram nem parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa, e o país perdeu 6,7 milhões de leitores em quatro anos.
Sinais de recuperação no mercado editorial
Apesar dos desafios, o mercado editorial tem mostrado sinais de recuperação. O Panorama do Consumo de Livros no Brasil, da Câmara Brasileira do Livro com a Nielsen BookData, apontou que 18% da população adulta comprou ao menos um livro em 2025, uma alta de 2 pontos percentuais em relação a 2024. Isso representa cerca de 3 milhões de novos consumidores no país.
Esse movimento, ainda tímido, indica que há um público ávido por leitura, mas que depende de condições concretas para acessar os livros. A recuperação do mercado, portanto, caminha lado a lado com a ampliação do acesso.
MEC Livros: uma ponte para reduzir a desigualdade
Para Itamar Vieira Junior, aumentar o número de leitores no Brasil exige políticas públicas que garantam o acesso. Um exemplo que ele citou é o MEC Livros, plataforma pública digital que reúne e disponibiliza gratuitamente obras literárias em formato digital, por meio de empréstimo. O próprio Torto Arado é o livro mais emprestado da plataforma.
"Esse ano veio um projeto muito bonito que é o MEC Livros. E aí não importa se você está lá numa comunidade isolada no Amazonas ou se você está numa grande cidade como Salvador ou São Paulo, mas você tem o livro ali, ao alcance, de forma gratuita", explicou. Para o escritor, essa é uma ferramenta que veio para reduzir e mitigar a desigualdade de acesso que existe no país.
A fala de Itamar reforça uma convicção: "Mas que o brasileiro gosta de história e gosta de ler, nós sabemos. Gosta muito, desde sempre".
O que isso significa para o futuro da leitura no Brasil
Os números da Retratos da Leitura mostram que ainda há um longo caminho pela frente. Perder 6,7 milhões de leitores em quatro anos é um alerta, mas não uma sentença. A combinação de políticas públicas, como o MEC Livros, e a ampliação de bibliotecas pode reverter esse quadro.
A experiência de Itamar Vieira Junior, que se formou leitor nas bibliotecas públicas de Salvador, é uma prova de que o acesso muda trajetórias. Quando o livro chega ao bairro, à periferia, à comunidade isolada, o leitor aparece.
Perguntas Frequentes
Por que o brasileiro não lê mais, segundo Itamar Vieira Junior?
Para o escritor, o brasileiro gosta de ler, mas enfrenta dificuldades de acesso, como preço alto dos livros e falta de bibliotecas públicas em bairros periféricos. A desigualdade de acesso é a principal barreira.
O que é o MEC Livros?
O MEC Livros é uma plataforma pública digital que reúne e disponibiliza gratuitamente obras literárias em formato digital, por meio de empréstimo. O livro Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, é o mais emprestado da plataforma.
Quantos leitores o Brasil perdeu nos últimos anos?
Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, o país perdeu 6,7 milhões de leitores em quatro anos. Em 2024, 47% da população com 5 anos ou mais se declarou leitora.
Qual a importância das bibliotecas públicas na formação de leitores?
As bibliotecas públicas são fundamentais para democratizar o acesso à leitura, especialmente em periferias. Itamar Vieira Junior atribui parte de sua formação como leitor às bibliotecas públicas de Salvador que frequentou na juventude.
O mercado editorial brasileiro está se recuperando?
Sim, há sinais de recuperação. Segundo o Panorama do Consumo de Livros no Brasil, da CBL com a Nielsen BookData, 18% da população adulta comprou ao menos um livro em 2025, alta de 2 pontos percentuais em relação a 2024, com cerca de 3 milhões de novos consumidores.
- A repórter e a fotógrafa viajaram a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flipelô 2026.
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