Em entrevista à Agência Brasil, o escritor Itamar Vieira Junior afirma que a literatura tem poder de humanizar e levar à reflexão. Ele fala do novo livro Coração sem Medo, da trilogia sobre a terra, e do drama do desaparecimento de um filho.
Escritor diz que literatura tem poder de humanizar e levar à reflexão
Em entrevista à Agência Brasil, o escritor Itamar Vieira Junior afirmou que a literatura tem a capacidade de humanizar e provocar reflexão. Ele falou sobre seu novo livro, Coração sem Medo, que encerra a trilogia sobre a terra iniciada com Torto Arado e seguida por Salvar o Fogo. A conversa aconteceu antes de sua participação na Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), em um palco ao ar livre lotado no Largo do Pelourinho, em Salvador.
O que a literatura pode fazer: humanizar e incomodar
Para Itamar, a literatura tem um papel que vai além do entretenimento. "Quem trata dos sentimentos e das subjetividades humanas é a arte e a arte tem o poder de devolver a vida, de humanizar aquilo que parece desumanizado", disse ele à Agência Brasil. A arte, porém, não entrega respostas prontas. "Tudo que a arte não faz é dar respostas. Ela nos ajuda a refletir sobre o que está acontecendo. Ela nos incomoda, a arte tem essa capacidade de incomodar. E é a partir do incômodo que as mudanças vêm", afirmou.
Essa visão orienta a Trilogia da Terra, conjunto de livros que se comunicam entre si. Em Torto Arado, a terra é território e pertencimento. Em Salvar o Fogo, ela se confronta com a violência, a fé e a disputa pelo sagrado. Em Coração sem Medo, a história chega a uma Salvador urbana, atravessada pelo deslocamento e pela violência contemporânea.
Coração sem Medo: a história de Rita Preta
O novo romance conta a história de Rita Preta, uma mulher que vive em Salvador. Ela é caixa de supermercado, tem três filhos e "toca a vida como pode", nas palavras do escritor. De repente, um dos filhos desaparece. "E aí começa a jornada dela para saber o que aconteceu", contou Itamar.
O desaparecimento ocorre após um desentendimento entre mãe e filho. Com o passar dos dias, Rita percebe que o sumiço pode não ter relação com a briga e passa a se dedicar à busca pelo paradeiro do filho. Nessa jornada, ela descobre que "a história não começou exatamente agora, mas é algo que vem de muito tempo antes", e que precisa se conectar com seus antepassados e origens.
O drama real por trás da ficção
Embora ficcional, o drama de Rita reflete um número cruel da realidade brasileira. No primeiro semestre deste ano, o Brasil registrou 43.828 pessoas desaparecidas, uma média de 242 sumiços por dia. Em todo o ano passado, foram 85.232 casos, uma média de 234 desaparecimentos por dia. Os dados são do Painel Estatístico do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça, e podem não refletir totalmente a realidade, já que muitos casos sequer são notificados.
Itamar destacou que o desaparecimento atinge todas as classes sociais, mas é mais cruel com quem vive nas periferias. "Eu sei que o desaparecimento atinge todas as classes, pessoas de todas as origens, mas ele é cruel porque se concentra muitas vezes naqueles que mais precisam e daqueles que mais carecem de políticas públicas do Estado. Esse é um tema que não envelhece e que ainda está à nossa volta", afirmou.
Salvador como cenário e personagem
Em Coração sem Medo, Itamar transporta a ação do campo, como em Torto Arado, para a cidade. "A gente pensa em Salvador, nessa riqueza cultural, nessas contradições históricas e parece que tudo já nasceu e já aconteceu aqui. Mas essa cidade cresce e acontece a partir de muitas chegadas", disse ao público na Flipelô.
Ele lembrou que Salvador recebeu povos originários, europeus e diáspora africana. No século 20, chegaram muitos baianos do interior por causa do êxodo rural, fugindo de conflitos fundiários ou em busca de esperança. Rita Preta é uma dessas pessoas: sai do campo para viver na capital e descobre que a cidade também é um território de disputas. "A cidade não pode ser habitada por todos da mesma maneira. Pelo contrário", afirmou.
O corpo como território
Para Itamar, a terra que une os três livros pode ser um lugar físico, uma memória ancestral ou "aquilo que um povo carrega consigo mesmo quando já lhe arrancaram a própria terra". No novo romance, o corpo do filho desaparecido de Rita é também um território. "Quando um personagem desaparece, esse corpo, que é um território, não é muito diferente da terra que está em disputa em Torto Arado, nem é muito diferente da terra que é patrimônio de uma igreja em Salvar o Fogo. Se tiraram ele de Rita é porque ainda existem corpos e territórios que não são cuidados, que não estão vivos porque essa violência histórica nos atravessa", disse.
O papel do incômodo na mudança
A literatura, para Itamar, não resolve o problema, mas provoca o pensamento. "Acho que sempre há caminhos. A arte não dá respostas, mas nos ajuda a refletir. Ela nos incomoda, e é a partir do incômodo que as mudanças vêm", reforçou. Essa é a aposta do escritor: que a ficção, ao humanizar o que parece distante, crie condições para que a sociedade olhe para o problema com mais profundidade.
Perguntas Frequentes
Qual é o novo livro de Itamar Vieira Junior?
O novo livro é Coração sem Medo, que encerra a trilogia sobre a terra, iniciada com Torto Arado e seguida por Salvar o Fogo.
Sobre o que fala Coração sem Medo?
O romance conta a história de Rita Preta, uma caixa de supermercado em Salvador, cujo filho desaparece. A trama aborda o desaparecimento, a busca por justiça e a desigualdade urbana.
Qual é a relação entre os três livros da trilogia?
Os três livros tratam do direito à terra, mas em contextos diferentes: Torto Arado fala de território e pertencimento; Salvar o Fogo, de violência e fé; Coração sem Medo, de deslocamento e violência urbana.
O que o escritor diz sobre o poder da literatura?
Itamar afirma que a literatura humaniza e provoca reflexão, mas não dá respostas. Ela incomoda, e é do incômodo que podem vir as mudanças.
Onde Itamar Vieira Junior falou sobre o livro?
Ele deu entrevista à Agência Brasil e participou da Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), em Salvador, em um palco ao ar livre lotado.
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